"Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta." Caio Fernando de Abreu
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Tem que ser irônico, charmoso e inteligente. Não precisa ser bonito – se tiver barba. Se souber tocar algum instrumento prometo não cansar nas duas primeiras semanas. Tem que ser honesto – não precisa ser fiel nem verdadeiro, mas tem que ser honesto. Um cafajeste – honesto. Que liga quando tem vontade, que some às vezes, que causa irritação, raiva e ciúmes ao mesmo tempo e sem motivo real, e que por isso me faz rir de mim mesma por saber o quanto isso é infantil e inútil. Tem que ser imprevisível, mesmo sendo honesto: não cria expectativa mas também não cansa. Não pode se conformar com o pouco: tem que ficar feliz com o pouco. Sim, pouco. Não pode transbordar, sufocar. Não pode ocupar meu tempo, estragar meus planos, mexer nas minhas feridas. Tem que ser leve, breve e ao mesmo tempo sem pressa. Tem que ser engraçado e paciente. Mas não precisa ser legal o tempo todo. Não precisa ficar, mas também não precisa fugir. Pode me ver como companheira e como inimiga – de vez em quando – mas tem que sacar logo que eu sou uma exímia jogadora. E jogar também, sabendo que ninguém ganha e ninguém perde. Ninguém pode ganhar e ninguém pode perder. Essa é a segunda regra – depois de ser irônico e ter barba. Não tem que tirar o fôlego, não pode ser arrebatador, avassalador. Não pode ser amor, porque me disseram que amor não acaba. Tem que saber que cedo ou tarde acaba. Na verdade atinge a validade na hora certa: nem cedo, nem tarde: porque jogo é a única coisa que ainda dá a sensação de que existe algo no mundo que não é controlado. Tem que ser discreto, mas não pode ser invisível. Tem que ser intenso e ao mesmo tempo inconstante. Não pode deixar dúvidas, muito menos respostas. Tem que ver sem gritar, tem que dizer sem mentir e, principalmente, tem que ‘ser’ sem propósito, sem proposta, sem promessa, sem futuro, sem segurança. Tem que ser assim e, sobretudo, tem que saber que é assim. Tem que ser igual e justo, sem ser imparcial. Tem que escolher um lado – mesmo que mude de idéia toda hora. Tem que ser decidido sem ser teimoso. Não precisa gostar de nada do que eu gosto, mas tem que me deixar gostar. Pode (deve) me mostrar muitas coisas e me fazer gostar de muitas coisas. Pode provocar, mas tem que agüentar o troco. Porque tem que ser um jogo justo. Porque não é amor: acaba. Porque não é paixão: acalma. Não tem nome. Pode ser uma brincadeira: arriscada, mas divertida. Não pode interromper: meus pensamentos no meio dia, meus sonhos no meio da noite, minha vida no começo da vida. Não pode dar saudade, só vontade. Tem que saber a hora certa de sair de cena e, principalmente, de entrar em cena. Não pode se deixar desvendar e também não pode se esconder. Não pode pensar antes de falar mas tem que pensar antes de fazer. Pode ser fofo, mas não pode ser romântico, dramático e, em hipótese alguma, sensível. Não pode precisar de mim. Não pode me fazer esperar. Porque eu não sei esperar, mas sei ir embora. Pode ser confuso, estranho, ter manias e falar engraçado. Desde que não seja pra me impressionar. E eu? Eu tenho que tomar cuidado, porque eu não sei perder. E jogo é sorte. E a sorte aí se chama empate.
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